A cidade se afogava em sangue.
Desde a explosão que matou Ethan McAllister, Hipton mergulhou no caos. A morte de um chefe de polícia já era rara, mas o assassinato brutal de alguém tão respeitado soava como uma declaração de guerra.
E a cidade respondeu.
Na delegacia, o telefone não parava. Assaltos à mão armada, tiroteios em becos, lojas incendiadas. A polícia já tinha dificuldades para conter a criminalidade antes. Agora, parecia que os criminosos sabiam que estavam no comando.
Para Ryan Dawson, tudo isso significava uma coisa: os responsáveis pela morte de Ethan continuavam soltos.
E enquanto estivessem soltos, ninguém estaria seguro.
— Dawson.
A voz do capitão Holden Briggs trouxe Ryan de volta. Ele piscou e viu o homem ao lado da mesa, já sabendo que não seria boa notícia.
— Você está fora da investigação sobre a morte do McAllister.
O sangue de Ryan ferveu.
— Você não pode estar falando sério.
— Você me ouviu. — Briggs soltou um suspiro cansado. — Você está emocionalmente envolvido, e não preciso de um policial obcecado por vingança estragando tudo.
Ryan se levantou tão rápido que a cadeira tombou.
— Acha que eu vou ficar parado enquanto o desgraçado que matou Ethan continua solto?
— Se continuar assim, vai acabar no mesmo lugar que ele.
Eles ficaram em silêncio por um instante. Tudo na delegacia seguia em frenesi, mas ali dentro o ar parecia suspenso
— Pegue alguns dias, Ryan — Briggs disse, por fim. — Lide com isso antes que isso acabe com você.
Mas Ryan já sabia.
Não havia mais nada dentro dele para ser destruído.
Enquanto a polícia tentava conter o caos, as ruas de Hipton mudavam de mãos.
No escuro de um galpão industrial, Leprechaun acendeu um charuto com um isqueiro dourado e observou seu plano tomar forma.
À frente, os antigos capangas de Alberto Grotto estavam ajoelhados e algemados. Homens que juraram lealdade ao chefão agora viam sua organização ruir.
Leprechaun caminhou entre eles, com um sorriso preguiçoso.
— O velho Grotto sempre dizia que era o rei dessa cidade. Mas sabem qual o problema dos reis?
Ele se abaixou diante de um dos homens e esmagou o charuto aceso contra sua mão, ignorando os gritos.
— Eles sempre caem.
Alguns fecharam os olhos, prontos para a execução.
Mas Leprechaun deu um passo atrás e abriu os braços.
— Não sou um tirano, rapazes. Se quiserem trabalhar pra mim, até sou generoso. Mas, se quiserem continuar fiéis a um rei caído…
Ele pegou uma pistola e apontou para um deles.
BANG.
O silêncio que seguiu era denso. O cheiro de pólvora e sangue se misturava ao mofo do galpão.
Os sobreviventes engoliram em seco e abaixaram as cabeças.
Leprechaun sorriu.
— Agora sim.
Tomar o império de Grotto não bastava. Ele precisava garantir que todos entendessem quem mandava.
E para isso queria um golpe forte, algo que sacudisse a cidade até os alicerces.
Ryan dirigia sem rumo, as luzes da cidade passando borradas no vidro. Hipton nunca estivera tão fora de controle.
— Três delegacias atacadas.
— Cinco caixas eletrônicos explodidos.
— Duas lojas incendiadas.
Era como se ninguém fosse impedir os criminosos.
O rádio chiou.
— Ataque em andamento na 7ª Avenida, vários homens armados, oficiais sob fogo.
O local era um inferno. Viaturas queimando, policiais feridos, criminosos atirando dos prédios abandonados.
Ryan saiu do carro com a arma em mãos e entrou direto no combate.
— Dawson, recua! — gritou um policial próximo.
Mas Ryan não recuava.
Ele correu entre carros destruídos, disparando contra os atiradores enquanto o coração batia como um tambor.
— Abaixem as armas! — ele gritou, mas sabia que ninguém obedeceria.
Um dos homens correu para um beco. Ryan o perseguiu entre destroços, desviando de balas.
Ao alcançá-lo, agarrou-o pela gola e o empurrou contra a parede.
— Quem mandou vocês?
— Hipton não pertence mais a vocês. Leprechaun é o novo rei dessa cidade.
Ryan o soltou. O homem escorregou até ficar de joelhos, rindo com sangue no canto da boca. Havia um brilho quase triunfante em seus olhos, como se conhecesse o fim da história.
— Vocês já perderam — ele sussurrou, cuspindo ao lado do joelho.
Ryan cerrou os punhos, lutando contra o impulso de derrubá-lo. Sirenes ecoavam ao longe, aproximando-se.
Outro policial entrou no beco, avaliou a cena e se abaixou para algemar o criminoso.
— Pegamos ele? — perguntou, ofegante.
Ryan não respondeu. O olhar preso naquele sorriso debochado que parecia um aviso.
Algo maior estava por vir.
O caos só estava começando.
O telefone vibrou. Era Amelia Harper, a prefeita.
— Dawson, preciso de você na prefeitura. Agora.
A sala da prefeita parecia um oásis de ordem no meio do colapso.
Amelia Harper estava diante da janela, encarando a cidade como se pudesse mantê-la unida pela força do pensamento.
— A cidade está caindo, Dawson. Você sabe disso.
— Não precisa me lembrar.
Ela se virou, o olhar firme.
— Prender Grotto não resolveu nada. O crime é um câncer em Hipton. Para derrotá-lo, precisamos de algo mais.
Ryan franziu a testa.
— Do que está falando?
Ela hesitou por um momento antes de suspirar.
— A Astra Corporation tem algo que pode nos ajudar.
O nome pesou no ar.
Astra Corporation, uma das maiores empresas do Canadá, poderosa e envolta em mistério.
Preciso que venha comigo, ela disse. E quero que mantenha a mente aberta pro que vai ver.
— Preciso que venha comigo — ela disse. — E quero que mantenha a mente aberta pro que vai ver.
— E se eu não aceitar?
Ela sorriu com cansaço.
— Então pode continuar lutando essa guerra sozinho… e perder.
Ryan olhou pela janela. As sirenes, o fogo, o caos devorando a cidade.
Sem mais perguntas, decidiu aceitar a proposta.
O que quer que estivesse esperando por ele…
Mudaria tudo.
