Cherreads

Chapter 6 - Capítulo 6

O céu de Hipton ardia em tons de laranja e vermelho. Não era o pôr do sol. Era a cidade queimando.

Sirenes tocavam à noite enquanto carros incendiados bloqueavam ruas inteiras, transformados em barricadas improvisadas. Gangues rivais, agora reunidas sob o comando de Leprechaun, espalhavam o caos como prova de lealdade e força.

Leprechaun observava tudo do antigo escritório de Alberto Grotto. O local, um santuário de poder e conspiração, agora pertencia a ele. Pelas janelas reforçadas com barras de aço retorcidas, via-se o reflexo das chamas consumindo a cidade inteira.

Sentado na poltrona de Grotto, ele girava um copo de cristal com uísque. O líquido deslizava pelas paredes do vidro, lento, quase preguiçoso. Leprechaun parecia saborear não apenas a bebida, mas o gosto da destruição. Seu olhar era o de um homem que já venceu, mas que ainda não se saciou. Como se a vitória só tivesse valor se o último movimento fosse seu.

O silêncio foi quebrado pela voz do Mestre das Facas.

— Ainda precisa dos meus serviços?

Leprechaun virou o rosto. O fogo refletido no vidro iluminava seus olhos.

— Tenho uma última tarefa para você. Preciso que capture a peça final do tabuleiro.

— Qual peça?

Um sorriso surgiu em seus lábios, de quem já conhece o desfecho de um jogo que sempre esteve sob seu controle.

— A rainha.

O silêncio voltou a reinar no escritório. Lá fora, Hipton queimava. Ali dentro, um novo jogo começava. E Leprechaun jogava sabendo exatamente como terminaria.

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A noite no Parque Salbury parecia mergulhada num silêncio opressor, quebrado apenas pelo som abafado de passos apressados entre as árvores.

A vegetação balançava levemente com a brisa, mas os olhos atentos de Gabriel Moreau vasculhavam cada sombra, como se esperassem que a escuridão revelasse algo monstruoso.

Depois de longos minutos, algo chamou sua atenção entre os arbustos espinhosos. Uma armadura desativada, parcialmente escondida pela vegetação.

Ele se ajoelhou ao lado dela. As mãos, sujas de terra e trêmulas, removeram o capacete com cuidado. O rosto de Ryan apareceu, pálido, suado, imóvel.

— Aguenta firme, Dawson.

Moreau inclinou-se, procurando qualquer sinal de vida.

Então ouviu. Um puxar de ar fraco, irregular. A respiração de Ryan. Vacilante, mas ali.

Sem perder tempo, tirou o celular do bolso e percorreu a lista de contatos até encontrar o nome certo.

— Preciso que venha urgentemente ao Parque Salbury. Encontrei o Ryan ferido.

Cinco minutos depois, o furgão da Astra Corporation surgiu entre as árvores.

A porta lateral abriu-se com um rangido discreto. Um dos cientistas desceu e foi direto até Moreau.

— Vamos colocá-lo no carro. Já avisei a Dra. Fletcher. Ela está a caminho do seu apartamento.

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O trajeto foi rápido e tenso. Sem a armadura, Ryan tremia sob cobertores térmicos enquanto o furgão cortava as ruas escuras de Hipton.

No apartamento de Moreau, no último andar de um prédio discreto no centro, a Dra. Evelyn Fletcher já esperava. De jaleco branco e luvas cirúrgicas, indicou a cama com urgência.

— Coloquem-no aqui, rápido.

O quarto havia sido transformado em um improvisado centro médico. Sentada à beira da cama, Evelyn trabalhava em silêncio. Seus olhos alternavam entre os aparelhos e o ferimento aberto no abdômen de Ryan, ainda ruborizado sob a gaze manchada de sangue.

Ryan flutuava entre a lucidez e o delírio. A febre fazia seu corpo estremecer. Mas a dor mais profunda não era física.

Na escuridão da inconsciência, Ethan McAllister surgiu.

Primeiro como um vulto recortado por fogo e fumaça. Depois, nítido. Cabelo grisalho, casaco preto, o mesmo sorriso irônico de sempre.

— Está tentando vingar a minha morte, Ryan?

A voz ecoava como se viesse de um lugar distante.

— Eu… estou tentando fazer justiça. Leprechaun matou…

— Justiça? Ou vingança?

Ethan deu um passo à frente. O peso da pergunta esmagou qualquer defesa. Desde a morte dele, cada decisão de Ryan havia sido guiada mais pela dor do que por um propósito.

— Você morreu por causa desta cidade corrupta…

— Vingança não muda nada. Quer salvar esta cidade? Então lute por ela.

No mundo real, lágrimas escorriam pelo rosto de Ryan enquanto os aparelhos registravam a aceleração dos batimentos.

Evelyn inclinou-se sobre ele.

— Ele está reagindo. Gabriel, venha ver. Ele está voltando.

No delírio, Ethan estendeu a mão. Ryan hesitou por um segundo, depois segurou-a. A escuridão começou a recuar.

Seus olhos se abriram devagar.

Moreau observava em silêncio. Evelyn afastou-se, aliviada.

Ryan piscou, ainda fraco, mas diferente. O nome de Ethan quase escapou de seus lábios. Em vez disso, virou-se para Gabriel.

— Preciso voltar à ativa.

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Mais tarde, após terminar a sopa quente que Evelyn insistira que tomasse, Ryan descansava com os olhos fixos no teto. A dor no abdômen latejava como brasa, mas ele a aceitava. Não por orgulho. Por necessidade.

Moreau caminhava de um lado para o outro, celular em mãos, recebendo atualizações sobre o conserto da armadura do Fúria Vermelha.

— A médica sabe sobre o Fúria Vermelha? — perguntou Ryan.

— Não faz ideia de quem ele é. Disse que você é um policial ferido que precisava de ajuda.

A televisão, esquecida no canto do quarto, piscou. O documentário que passava em volume baixo desapareceu. A tela ficou preta. Em seguida, surgiu um letreiro vermelho: Urgente – Transmissão ao vivo do Mercury News.

Os dois se entreolharam. Algo estava fora de controle.

A apresentadora apareceu por um instante, pálida.

— Interrompemos a programação para uma atualização urgente. A redação do Mercury News acaba de receber um vídeo de um incidente em andamento na cidade de Hipton…

A imagem mudou.

Um armazém escuro, iluminado por lâmpadas fluorescentes tremeluzentes. No centro, amarrada a uma cadeira metálica, estava a prefeita Amelia Harper. Os olhos arregalados. Presilhas com explosivos estavam fixadas ao redor de seu corpo, conectadas por fios expostos.

A câmera aproximou-se lentamente.

Das sombras atrás dela, surgiu Leprechaun.

Seus olhos brilhavam com um prazer doentio. Ele inclinou o rosto até quase tocar a lente.

— Estão assistindo, não estão? Espero que sim. Seria uma pena preparar todo esse espetáculo… e não ter plateia.

Riu. Um som agudo, quebrado. Amelia estremeceu, mas manteve o olhar firme.

— Nossa rainha teve uma semana difícil. Tanta pressão. Tantos segredos… Sabiam que ela estava envolvida no Projeto Fúria Vermelha? Ah… isso era segredo. Agora não é mais.

Na mão, segurava um pequeno dispositivo retangular. A luz vermelha pulsava. Ele o girava entre os dedos como se fosse um brinquedo.

— Estão vendo isso? Uma dança de circuitos. Cada fio, uma promessa de fim.

Aproximou-se da cadeira em que a prefeita estava presa.

— Não é uma exigência. Não quero resgate. Não quero negociação. Quero memória. Quero que lembrem exatamente quando Hipton começou a ruir.

Ergueu o controle devagar. O polegar pairou sobre o botão.

— Sejam rápidos. Estamos no armazém 24B.

A transmissão foi cortada com um clique seco.

Na tela, apenas o letreiro vermelho: TRANSMISSÃO INTERROMPIDA.

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