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Chapter 12 - O Arquiteto de Mitos

O silêncio nas colinas de Hollywood era absoluto, exceto pelo som rítmico das teclas da Smith Corona Classic de Leo Stone. Ele estava trancado em sua nova residência, uma casa de arquitetura moderna, com amplas paredes de vidro que olhavam para as luzes de Los Angeles como se observassem um tabuleiro de xadrez em repouso. No centro da sala de estar, como uma divindade de metal e sangue, repousava um Plymouth Fury 1958 vermelho e branco. O carro não era apenas um acessório; era sua musa sombria.

Leo Stone inclinou-se sobre a máquina de escrever. O cheiro de vinil velho, gasolina e cera de carro preenchia o ar, misturando-se ao aroma do café Maxwell House fresco. Ele estava no meio do segundo ato de Christine. Suas mãos moviam-se com uma precisão que ignorava o cansaço que um dia o matara. Ele não estava apenas adaptando a obra de Stephen King; ele estava injetando nela o medo da tecnologia que a América de meados da década de 60 começava a sentir, logo após a publicação de Unsafe at Any Speed, de Ralph Nader.

“Arnie não estava apenas segurando o volante. Ele estava segurando a mão de algo que tinha dentes e uma memória longa. Christine não precisava de uma chave; ela precisava de uma obsessão.”

Leo puxou a folha do rolo da máquina com um som seco e satisfatório. Ele olhou para o Mustang prata estacionado na garagem através da fresta das cortinas. Sua vida havia se tornado uma linha de montagem de sucessos. A cada manhã, ele revisava as provas de cor que chegavam de Connecticut; à tarde, ele gerenciava o império literário que começava a chorar por Jenny Cavilleri; e, à noite, ele alimentava a sede de sangue da Plymouth Fury.

...

Dois dias depois, Leo Stone desembarcou em Derby, Connecticut. Ele não estava sozinho. Norman Brokaw, mantendo-se como uma sombra observadora e silenciosa, carregava uma pasta de couro com os selos da William Morris Agency. Eles entraram na gráfica da Charlton Publications, onde o som ensurdecedor das prensas de segunda mão vibrava no chão de concreto sujo de óleo.

John Santangelo e Ed Levy o esperavam em uma sala de reuniões que cheirava a fumaça de charuto e tinta fresca. Na mesa, três caixas de madeira lacradas aguardavam.

— Stone — disse Santangelo, limpando as mãos em um pano imundo. — Você disse que traria o futuro em caixas. Estamos com as prensas paradas esperando por um motivo para não declararmos falência até o Natal.

Leo Stone abriu a primeira caixa. Retirou um volume grosso, encadernado em couro sintético, com o título: "Atomic Ten: O Guia de Campo".

Dentro, não havia apenas um roteiro de quadrinhos. Havia a primeira "Bíblia de Produção" da história. Em uma época em que os quadrinhos eram feitos de forma improvisada, Leo Stone estava entregando um design completo. Havia esquemas anatômicos de dez monstros, paletas de cores específicas para as tintas baratas da Charlton e um arco narrativo de cinco anos. O relógio que ele desenhara era uma peça de tecnologia militar da Guerra Fria: pesado, de aço escovado, com mostradores de rádio luminosos e engrenagens visíveis.

— Isso é meticuloso demais para uma revistinha de dez centavos — murmurou um homem magro que saía das sombras do estúdio de arte.

Leo reconheceu o olhar astuto e os dedos manchados de nanquim. Era Steve Ditko. O gênio que co-criara o Homem-Aranha estava ali, tendo acabado de deixar a Marvel por não aceitar a falta de controle sobre suas criações. Ele pegou a bíblia de Atomic Ten e começou a folhear os desenhos.

— Você não quer apenas um herói, Stone — disse Ditko, com um respeito relutante na voz. — Você quer um ecossistema. Esses monstros... eles não parecem desenhos. Parecem pesadelos que já existem em algum lugar e você apenas os fotografou.

Leo abriu a segunda caixa: "Auto-Phantoms". Quando Ditko viu o desenho de um Pontiac GTO 1965 se desdobrando em um gigante de metal com pistões hidráulicos expostos e a fiação interna detalhada, ele parou de respirar por um segundo. A complexidade mecânica desafiava a estética plana da era de prata. Era uma fusão de engenharia e fantasia que ninguém em 1965 estava preparado para ver.

— E as outras duas? — perguntou Ed Levy, apontando para a terceira caixa.

Leo deslizou dois manuscritos menores: "Midnight Drift" (Initial D) e "Dreadnought Hoops" (Slam Dunk).

— Isto é o que eu chamo de "Realismo de Rua" — explicou Leo. — Esqueçam alienígenas por um momento. Eu quero histórias sobre jovens delinquentes em Los Angeles, apostando corridas nas estradas de Mulholland Drive com técnica pura, e garotos de bairros pobres encontrando redenção em quadras de basquete. Drama humano, suor e o rugido dos motores. Nada de capas, apenas asfalto e determinação.

Norman Brokaw, observando de canto, notou que Leo Stone não descrevia as histórias como ideias; ele as descrevia como se estivesse recitando fatos históricos. Leo sabia o nome exato da peça do carburador que falharia na corrida do capítulo 14. Ele sabia a pressão exata que o personagem de basquete usaria no arremesso final.

— Você fala dessas coisas como se elas já estivessem prontas, garoto — murmurou Santangelo. — Como sabe que as crianças vão querer ver carros se transformando em máquinas de guerra?

— Porque a imaginação não tem freio, Sr. Santangelo. E eu já vi o que acontece quando você dá ao público o que eles ainda nem sabem que desejam.

Santangelo olhou para as máquinas barulhentas no andar de baixo, as prensas que costumavam imprimir caixas de cereais.

— Stone, ligue as máquinas — ordenou Santangelo para seus supervisores. — Se o Ditko está dentro, eu estou dentro.

...

De volta a Los Angeles, a vida de Leo Stone mudara drasticamente. Ele não era mais o fantasma que servia cafés. Agora, quando ele entrava no pátio da Universal com seu Mustang prata, os guardas batiam continência e os diretores veteranos paravam suas conversas para observar sua passagem.

Em sua mesa de trabalho no novo escritório da "Stone Productions", na Torre Negra, Leo revisava o roteiro de Jaws que entregaria a Steven Spielberg. O jovem Steven passava horas no escritório de Leo, fascinado pela clareza da visão do autor.

— Leo — disse Steven, um dia, enquanto examinava os esboços dos monstros de Atomic Ten que Leo deixara sobre a mesa. — Você escreve livros que dão medo de nadar, romances que fazem a nação chorar e agora está criando robôs que se disfarçam de carros. Quem é você de verdade?

Leo Stone não levantou os olhos do manuscrito de Christine.

— Eu sou apenas um homem que cansou de limpar o set, Steven. E percebi que a única maneira de garantir que o café do diretor esteja sempre quente é sendo o dono da cafeteira, do grão e do estúdio onde ela está ligada.

Steven Spielberg riu, mas havia um brilho de adoração em seus olhos. Ele não entendia como aquele jovem de 22 anos possuía a sabedoria cínica de um homem que já vira o fim da indústria cinematográfica.

Naquela tarde, o telefone da mesa de Leo tocou. Era Lew Wasserman.

— Stone — a voz do Zeus de Hollywood era um sussurro de autoridade. — Recebi os primeiros exemplares de Auto-Phantoms. A General Motors ligou para o meu escritório. Eles estão furiosos porque o vilão do seu quadrinho se transforma em um Chevrolet Corvair. Eles alegam difamação de produto.

Leo Stone sorriu, o mesmo sorriso predador que usara no Polo Lounge.

— Diga a eles que se a GM não gosta de ser a vilã, a Ford ficaria encantada em ter o Mustang como o herói principal da franquia. E avise que o próximo número de Atomic Ten vai introduzir um monstro que se alimenta de aço industrial. — Leo fez uma pausa estratégica. — O conflito gera publicidade, Lew. E publicidade vende ingressos. Deixe que eles processem. Cada dólar que eles gastarem com advogados é um dólar de marketing gratuito para nós.

Wasserman ficou em silêncio por um longo momento antes de soltar uma risada curta.

— Você é um demônio, Stone. Um demônio de Technicolor.

Leo desligou o telefone e voltou para a Smith Corona. O Ciclo de Sísifo terminara de fato. Leo Stone não estava mais empurrando a pedra; ele era a própria avalanche, descendo a montanha de Hollywood e soterrando tudo o que era antigo, lento e medíocre em seu caminho.

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