O ar dentro da Unidade de Contenção 77-B não era feito para ser respirado por pulmões humanos; era um vácuo denso, saturado de partículas magnéticas para suprimir o que a ciência chamava de "O Inferno de William".
Est caminhava pelo corredor de concreto pressurizado com a calma de um fantasma. O som de suas botas de combate não ecoava — no setor dos Vácuos, o som morria antes de nascer. Ele ajustou as luvas de fibra de carbono e parou diante da última barreira: uma placa de policarbonato reforçado de vinte centímetros de espessura.
Atrás do vidro, o mundo estava em ruínas.
Lá dentro, William estava sentado no chão, envolto em correntes de chumbo que serviam como para-raios improvisados. Ele era um homem grande, mas parecia dobrado sob o peso do próprio corpo. Ao redor dele, a realidade vibrava.O ar tremeluzia como o asfalto em um dia de calor extremo. Lâmpadas de LED no teto da cela estouravam em faíscas rítmicas, acompanhando o batimento cardíaco descontrolado do prisioneiro.
William levantou a cabeça. Seus olhos estavam vermelhos, as veias do pescoço saltadas. Ele não falava; o "Dissonante Negro" não conseguia articular palavras sem que a frequência de sua voz derretesse os microfones de comunicação. Ele era apenas ruído. Pura e agonizante interferência.
Est deslizou o cartão de acesso. O sistema de
segurança gritou um aviso final em vermelho:
[ALERTA: DISSONÂNCIA EM NÍVEL CRÍTICO. RISCO DE COLAPSO NEURAL.]
Est ignorou. Ele não tinha uma "nota". Ele era o zero absoluto na escala Symphony. Para ele, William não era um monstro, era apenas um trabalho.
A porta se abriu com um chiado hidráulico.
No instante em que Est pisou na cela, a pressão foi esmagadora. Era como mergulhar em um oceano de eletricidade estática. Seus ossos vibraram, e o gosto de metal inundou sua boca. William rosnou, um som que não era humano, e as correntes que o prendiam ao chão começaram a brilhar em um tom laranja opaco devido à fricção molecular.
— Fique longe... — A voz de William saiu como um trovão distorcido, cada sílaba fazendo o vidro atrás de Est trincar. — Você... vai morrer...
Est não parou. Ele sacou a pequena ampola de Silencer — o sedativo terminal. Sua missão era injetar aquilo no pescoço de William e encerrar a tempestade. Para sempre.
William tentou se levantar, mas uma onda de choque emanou de seu peito, jogando tudo o que não estava parafusado contra as paredes. Est cambaleou, sentindo o impacto no peito, mas continuou avançando. Ele era o único ser vivo que não tinha os tímpanos rompidos pela presença de William.
Quando estava a poucos centímetros, William desabou de joelhos, cobrindo os ouvidos, gritando por um silêncio que nunca vinha. O caos ao redor deles era ensurdecedor. O teto rangia. As paredes rachavam.
Est se ajoelhou à frente dele. Sua mão, firme e fria, buscou o pescoço do prisioneiro para aplicar a dose letal.
Mas, em vez de injetar a agulha, Est hesitou. Por um segundo, seus dedos tocaram a pele quente e suada da nuca de William.
O mundo parou.
Em um milésimo de segundo, as lâmpadas que piscavam se estabilizaram em uma luz branca e fixa. O tremor das paredes cessou. As correntes de chumbo esfriaram instantaneamente. O ruído branco que atormentava a mente de William há vinte anos desapareceu, engolido pelo vácuo absoluto que era Est.
William congelou. Ele abriu os olhos, ofegante, olhando para o rapaz à sua frente. Pela primeira vez em sua vida, ele não ouvia o próprio inferno. Ele ouvia o silêncio.
E Est? Est, que nunca tinha ouvido nada além do vazio, sentiu um solavanco no peito. No ponto onde seus dedos tocavam William, uma nota musical — pura, límpida e profunda — começou a soar em sua mente. Não era um ruído. Era uma canção. Uma melodia que o chamava pelo nome.
Est deixou a ampola cair. Ela se despedaçou no chão, inútil.
— O que você... — William sussurrou, sua voz agora limpa, humana, vulnerável. — O que você fez com o barulho?
Est sentiu uma lágrima solitária escorrer, algo que sua programação de agente jamais permitiria. Ele aproximou a outra mão e segurou o rosto de William, ancorando o homem que destruía o mundo na paz do seu silêncio.
— Eu não fiz nada — sussurrou Est, maravilhado. — Eu só... finalmente estou ouvindo você.
Lá fora, os alarmes da base começaram a soar. O sistema Symphony tinha detectado a anomalia.
A "Frequência Fantasma" tinha acabado de nascer.
